Artrose e Dor

Artrose no quadril: dá para tratar sem cirurgia?

Nem toda artrose no quadril precisa de cirurgia. Entenda os sintomas, as opções de tratamento conservador e quando a prótese passa a ser a melhor alternativa.

Artrose no quadril: dá para tratar sem cirurgia?

“Doutor, eu vou ter que operar?” Essa é, de longe, a pergunta que mais escuto de quem chega ao consultório com dor no quadril. E a resposta honesta é: na maioria das vezes, o tratamento começa sem cirurgia. Em muitos casos, é possível controlar a dor e manter uma vida ativa por bastante tempo com medidas conservadoras.

Neste artigo explico o que é a artrose no quadril, quais são as opções de tratamento sem cirurgia e quando a prótese passa a ser uma conversa necessária.

O que é a artrose no quadril?

O quadril é uma articulação do tipo “bola e soquete”: a cabeça do fêmur (a bola) encaixa no acetábulo, que faz parte da bacia (o soquete). As duas superfícies são revestidas por cartilagem, um tecido liso que permite o movimento sem atrito.

Na artrose, essa cartilagem vai se desgastando aos poucos. O espaço entre os ossos diminui, surgem os chamados “bicos de papagaio” (osteófitos) e a articulação fica mais rígida e dolorida.

Quem tem mais risco?

A artrose não tem uma causa única, mas alguns fatores aumentam a chance de desenvolvê-la:

  • idade, principalmente acima dos 50 anos;
  • histórico familiar;
  • excesso de peso;
  • lesões ou fraturas anteriores no quadril;
  • alterações no formato do quadril desde a infância, como a displasia;
  • impacto femoroacetabular, uma alteração no formato do quadril que faz os ossos se encostarem antes da hora (explico mais abaixo).

Artrose primária e secundária

Quando não encontramos uma causa clara, chamamos de artrose primária. Já a artrose secundária aparece como consequência de outro problema no quadril, como displasia do desenvolvimento, impacto femoroacetabular, doença de Perthes ou epifisiólise na infância, necrose da cabeça do fêmur, traumas, infecções antigas ou sobrecarga repetitiva no esporte e no trabalho.

O impacto femoroacetabular merece um destaque, porque é uma causa reconhecida há relativamente pouco tempo. Durante muito tempo, boa parte das artroses em quadris sem displasia era considerada “sem causa”. No início dos anos 2000, o grupo do cirurgião suíço Reinhold Ganz mostrou que pequenas diferenças no formato do fêmur (tipo CAME) ou do acetábulo (tipo PINCER) fazem os ossos se encostarem antes da hora ao dobrar e girar o quadril. Com o tempo, esse contato repetido pode lesar o lábio do acetábulo e a cartilagem, abrindo caminho para a artrose. É mais comum em adultos jovens e ativos, e costuma dar dor na virilha ao sentar por muito tempo, agachar ou girar o quadril. Ter esse formato não significa ter doença, e ainda não está comprovado que tratá-lo impeça a artrose no futuro. Mas, para quem é jovem e tem dor na virilha, vale investigar cedo, enquanto a cartilagem ainda está preservada.

Essa diferença importa: quando a artrose aparece antes dos 50 anos, muitas vezes existe uma causa secundária por trás, principalmente a displasia. Identificar essa causa ajuda a escolher o tratamento e, em alguns casos, a agir mais cedo.

O excesso de peso, por sua vez, não costuma ser a causa isolada da artrose, mas acelera o desgaste da articulação. Por isso ele entra no plano de tratamento.

Sintomas mais comuns

A artrose do quadril costuma dar sinais aos poucos:

  • dor na virilha, que pode irradiar para a parte interna da coxa, para a nádega ou até para o joelho;
  • dor mais forte no início do movimento, como ao levantar da cadeira ou dar os primeiros passos;
  • rigidez ao acordar ou depois de ficar muito tempo sentado;
  • dificuldade para calçar meias e sapatos, cortar as unhas dos pés ou entrar no carro;
  • dor que piora com caminhadas longas, escadas ou esforço;
  • mancar ou perder parte do movimento do quadril;
  • piora em dias frios e úmidos, que muitos pacientes relatam.

Costumo explicar que o quadril vai “perdendo movimento” aos poucos, e o primeiro movimento a ficar limitado normalmente é o de girar a perna para dentro. Por isso, gestos simples como cruzar as pernas ou calçar o sapato ficam difíceis antes mesmo de a dor ficar forte.

Quando os dois quadris são afetados, também é comum aparecer dor na região lombar.

Um detalhe importante: dor no quadril nem sempre é artrose. Problemas na coluna, nos tendões ou na bursa podem dar sintomas parecidos. Por isso a avaliação clínica, com exame físico e radiografia, é essencial.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico começa pela conversa e pelo exame físico: observo a forma de caminhar, a força da musculatura ao redor do quadril e quanto movimento a articulação ainda tem. Na maioria dos casos, a radiografia da bacia é suficiente para confirmar a artrose e ver o grau de desgaste. Ressonância ou tomografia ficam reservadas para situações específicas, como quando a radiografia está normal e a dor persiste.

Um ponto que sempre reforço: a imagem nem sempre conta a história toda. Tem gente com radiografia bem alterada e pouca dor, e gente com pouca alteração e muita limitação. O tratamento é guiado pelo conjunto, e não só pelo exame.

Dá para tratar sem cirurgia? Sim, na maioria dos casos iniciais

As principais diretrizes internacionais sobre artrose concordam em um ponto: o tratamento começa pelas medidas conservadoras. A cirurgia entra quando elas deixam de controlar os sintomas. Veja os pilares desse tratamento.

1. Exercício e fortalecimento muscular

Esse é o pilar mais importante. Os músculos são responsáveis por boa parte da estabilidade do quadril e ajudam a distribuir a carga a cada passo. Músculos fortes ao redor do quadril, principalmente glúteos e coxa, ajudam a proteger a articulação e reduzir a dor. Fisioterapia, musculação orientada, hidroginástica, bicicleta e pilates são boas opções. O segredo é regularidade e progressão adequada.

2. Controle do peso

Cada quilo a mais aumenta a carga sobre o quadril a cada passo. Para quem está acima do peso, mesmo uma perda moderada pode trazer alívio da dor e melhora na função.

3. Ajustes na rotina

Trocar atividades de alto impacto por outras de baixo impacto, usar uma bengala nos dias de mais dor ou adaptar a altura de cadeiras e do vaso sanitário são medidas simples que fazem diferença no dia a dia.

4. Medicamentos

Analgésicos e anti-inflamatórios podem ajudar nas crises, sempre com orientação médica e pelo menor tempo necessário, já que têm efeitos colaterais e interações com outros remédios. Evite a automedicação.

5. Nutracêuticos, suplementos e alimentação anti-inflamatória

Na minha prática, alimentação e suplementação fazem parte do plano de tratamento. Existe hoje toda uma abordagem que inclui nutracêuticos, como a diacereína (um medicamento que exige prescrição médica) e a cúrcuma, além de outros suplementos, da alimentação anti-inflamatória e do cuidado com a saúde intestinal, com prebióticos, probióticos e pós-bióticos.

Muitas dessas opções ainda estão sendo estudadas. Mas, na prática clínica, vejo que muitos pacientes têm os sintomas amenizados ao longo do tratamento.

É importante ter clareza: nada disso faz a artrose regredir. O objetivo é ajudar na dor e nos sintomas, atuando sobre a inflamação crônica de baixo grau (a chamada metainflamação) e sobre as alterações neurológicas que deixam a dor mais sensível e persistente. Essas medidas somam ao exercício e ao controle do peso, mas não os substituem.

Em alguns casos, também pode ser necessária a suplementação intramuscular de nutrientes e antioxidantes, para repor o que o organismo está precisando e ajudar a equilibrar o estresse oxidativo do corpo.

Um alerta importante: “natural” não quer dizer “sem risco”. Suplementos podem interagir com outros remédios, como os anticoagulantes, e a qualidade varia muito entre os produtos. Não se automedique: converse com seu médico para montar um plano seguro para você.

6. Procedimentos minimamente invasivos

Quando a dor persiste apesar das medidas anteriores, existem procedimentos feitos no consultório ou em ambiente ambulatorial, sem cortes, que podem entrar no plano. Apresento aqui apenas as opções; cada uma merece uma conversa própria, e a indicação é sempre individual.

Infiltrações guiadas por ultrassom. O quadril é uma articulação profunda, por isso a aplicação deve ser guiada por imagem. Eu uso o ultrassom, que permite ver a agulha em tempo real e colocar o medicamento no local exato. Entre as opções estão:

  • PRP (plasma rico em plaquetas), feito com o sangue do próprio paciente;
  • aspirado de medula óssea (BMA) e outros ortobiológicos, que usam células e fatores do próprio paciente;
  • ácido hialurônico, em casos selecionados;
  • corticoide, que ainda é usado e tem indicação em situações selecionadas, como uma crise de dor intensa.

Hoje, cada vez mais, tenho indicado procedimentos que buscam estimular a reparação e a melhora da qualidade do tecido, como os ortobiológicos. Em muitas situações, eles mostram resultados semelhantes ou melhores no médio prazo, sem os efeitos sobre os tecidos que estão associados ao uso repetido do corticoide. Sou transparente: no quadril, as evidências ainda estão em evolução e são mais limitadas do que no joelho. A artrose avançada não exclui essas opções: em casos selecionados, elas podem ajudar no controle da dor e da função, sempre com expectativas bem alinhadas.

Terapia por ondas de choque. Pode ajudar na dor de tendões e músculos ao redor do quadril, que muitas vezes acompanha a artrose.

Procedimentos para a dor de origem nos nervos. Parte da dor da artrose é conduzida por pequenos nervos sensitivos do quadril. Em casos selecionados, é possível fazer bloqueios ou a ablação por radiofrequência desses nervos, para reduzir a dor.

O que vem por aí. A pesquisa sobre dor articular e tendinopatias avança rápido, e algumas abordagens ainda em investigação despertam interesse crescente. Uma delas é a ozonioterapia, estudada como recurso complementar capaz de modular a inflamação e a dor nesses tecidos. Os resultados preliminares são encorajadores, mas ainda precisam ser confirmados por estudos mais robustos — algo que, pelo ritmo atual das pesquisas, pode acontecer em curto prazo.

Nenhum desses procedimentos faz a artrose regredir. O objetivo é aliviar a dor, melhorar a função e ajudar você a seguir com o exercício e as outras medidas do tratamento.

E as cirurgias que preservam o quadril?

Nem toda cirurgia de quadril é prótese. Em pacientes mais jovens, principalmente quando a artrose é causada por uma alteração no formato do quadril (como a displasia), existem cirurgias que corrigem o alinhamento do osso, as osteotomias. Elas podem melhorar a distribuição da carga, aliviar a dor e adiar a necessidade de prótese. A artroscopia do quadril também pode ser indicada em fases iniciais, para tratar alterações que favorecem o desgaste. Ela é feita por pequenos cortes, com uma câmera, mas é uma cirurgia de verdade, com anestesia, riscos e um período de reabilitação que precisa ser levado a sério. Hoje, o impacto femoroacetabular é a principal condição que leva a esse tipo de cirurgia.

Essas opções dependem muito da idade, da causa da artrose e de quanto movimento o quadril ainda tem, por isso são avaliadas caso a caso.

Quando a prótese passa a ser necessária?

A prótese de quadril costuma entrar na conversa quando:

  • a dor é intensa e frequente, inclusive à noite ou em repouso;
  • a artrose já está avançada na radiografia;
  • o tratamento conservador e os procedimentos minimamente invasivos, bem feitos, não trazem mais alívio suficiente;
  • a dor limita atividades importantes para você, como trabalhar, caminhar ou cuidar da família.

A artroplastia total de quadril (a prótese) é uma das cirurgias ortopédicas mais estudadas e realizadas no mundo. Mesmo assim, colocar uma prótese é uma decisão que deve ser tomada com calma, em conjunto, pesando benefícios e riscos para o seu caso. Ninguém deve colocar uma prótese por pressa, e também não vale a pena adiar indefinidamente enquanto a qualidade de vida vai embora.

Olhar para a pessoa, não só para a radiografia

Duas pessoas com radiografias parecidas podem ter dores e necessidades completamente diferentes. Sono, peso, alimentação, condicionamento físico, outras doenças e até o emocional influenciam na dor. Por isso eu procuro entender a sua rotina, seus objetivos e seus medos antes de propor qualquer tratamento. O melhor plano é aquele que faz sentido para a sua vida.

Perguntas frequentes

Artrose no quadril tem cura?

A artrose não tem cura no sentido de recuperar a cartilagem perdida, mas tem tratamento. Com as medidas certas, muitas pessoas conseguem controlar a dor e manter-se ativas.

Caminhar faz mal para quem tem artrose no quadril?

Em geral, não. Atividade física orientada faz parte do tratamento. O que muda é a dose: intensidade, duração e tipo de exercício devem ser ajustados para cada pessoa.

Infiltração no quadril resolve o problema?

A infiltração pode aliviar a dor e facilitar a reabilitação, mas não reverte a artrose. Ela funciona melhor quando acompanhada de exercícios e outras mudanças na rotina.

Com que idade se coloca prótese de quadril?

Não existe uma idade fixa. A indicação depende da intensidade dos sintomas, do grau de artrose e do impacto na qualidade de vida, e não apenas da idade.

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Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta médica. Diagnóstico e tratamento devem ser definidos individualmente, após avaliação.

Dr. Gabriel Antunes – Ortopedista | CRM 21883 | RQE 17358 | Criciúma-SC

Referências

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  2. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Osteoarthritis in over 16s: diagnosis and management (NG226). 2022. https://www.nice.org.uk/guidance/ng226
  3. OARSI guidelines for the non-surgical management of knee, hip, and polyarticular osteoarthritis. Osteoarthritis Cartilage. 2019. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31278997/
  4. Ganz R, Parvizi J, Beck M, et al. Femoroacetabular impingement: a cause for osteoarthritis of the hip. Clin Orthop Relat Res. 2003;417:112-120. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/14646708/
  5. Griffin DR, Dickenson EJ, O’Donnell J, et al. The Warwick Agreement on femoroacetabular impingement syndrome (FAI syndrome): an international consensus statement. Br J Sports Med. 2016;50(19):1169-1176. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27629403/
  6. Fidelix T, Macedo CR, Maxwell LJ, Fernandes Moça Trevisani V. Diacerein for osteoarthritis. Cochrane Database Syst Rev. 2014. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24515444/
  7. Liu X, et al. Dietary supplements for treating osteoarthritis: a systematic review and meta-analysis. Br J Sports Med. 2018. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29018060/
  8. McAlindon TE, LaValley MP, Harvey WF, et al. Effect of Intra-articular Triamcinolone vs Saline on Knee Cartilage Volume and Pain in Patients With Knee Osteoarthritis: A Randomized Clinical Trial. JAMA. 2017;317(19):1967-1975. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28510679/
  9. Brasil. Lei nº 14.648, de 4 de agosto de 2023 (autoriza a ozonioterapia como procedimento de caráter complementar). https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2023/lei/l14648.htm

Referências e leitura complementar

  1. American Academy of Orthopaedic Surgeons (AAOS) – OrthoInfo. *Hip Osteoarthritis.* ↗
  2. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). *Osteoarthritis in over 16s: diagnosis and management (NG226).* 2022. ↗
  3. *OARSI guidelines for the non-surgical management of knee, hip, and polyarticular osteoarthritis.* Osteoarthritis Cartilage. 2019. ↗
  4. Ganz R, Parvizi J, Beck M, et al. *Femoroacetabular impingement: a cause for osteoarthritis of the hip.* Clin Orthop Relat Res. 2003;417:112-120. ↗
  5. Griffin DR, Dickenson EJ, O'Donnell J, et al. *The Warwick Agreement on femoroacetabular impingement syndrome (FAI syndrome): an international consensus statement.* Br J Sports Med. 2016;50(19):1169-1176. ↗
  6. Fidelix T, Macedo CR, Maxwell LJ, Fernandes Moça Trevisani V. *Diacerein for osteoarthritis.* Cochrane Database Syst Rev. 2014. ↗
  7. Liu X, et al. *Dietary supplements for treating osteoarthritis: a systematic review and meta-analysis.* Br J Sports Med. 2018. ↗
  8. McAlindon TE, LaValley MP, Harvey WF, et al. *Effect of Intra-articular Triamcinolone vs Saline on Knee Cartilage Volume and Pain in Patients With Knee Osteoarthritis: A Randomized Clinical Trial.* JAMA. 2017;317(19):1967-1975. ↗
  9. Brasil. *Lei nº 14.648, de 4 de agosto de 2023* (autoriza a ozonioterapia como procedimento de caráter complementar). ↗

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